A Amamentação e a Cárie Dentária

A amamentação está envolta em vários mitos, de origem duvidosa e com pouca (ou nenhuma) validade científica.

Do ponto de vista da carie dentária é frequente ouvir mães dizerem que o seu dentista\pediatra recomendou suspender a amamentação porque a criancinha apareceu com caries, porque surgiram os dentes e não pode mamar de noite, porque o leite interfere com a absorção de ferro, porque acorda muitas vezes de noite e já devia dormir 12h seguidas, etc.

Antes de mais convém deixar claro que um médico dentista dito “generalista” ou sem formação específica em odontopediatria não tem qualquer formação académica em leite materno ( mesmo os odontopediatras eu tenho as minhas reservas!).

Ponto seguinte: o que é a Carie?

A carie é uma doença infecto-contagiosa e multi-factorial, desencadeada por 3 factores: microorganismos patogénicos, dieta e hospedeiro.

Os principais microorganismos colonizadores são o Streptococcus Muttans  e o S. Sobrinus.

Estes colonizam a superfície do dente e produzem ácidos em velocidade superior à capacidade de neutralização do biofilme abaixo do pH crítico (inferior a 5,5) permitindo a dissolução do esmalte.

O leite materno, ao contrário do leite artificial e do leite de vaca, é básico, não favorecendo este processo.

Além disso, a infecção da criança depende do nível da infecção da mãe ou da pessoa que está mais em contacto com ela.

Quanto à dieta.

É sabido, através de estudos antropológicos, que antes do surgimento da agricultura, em que o ser Humano se alimentava apenas de raízes, frutos, sementes e carne, a incidência de carie era de 2% e apenas em pessoas mais idosas. Já com o advento da agricultura e principalmente com a introdução e massificação do açúcar refinado a incidência passou para níveis de 50-90%.

Isto porque a sacarose tem a capacidade de transformar alimentos não cariogénicos em cariogénicos. No entanto, mais importante que a simples exposição ao açúcar, é sim o frequente e prolongado contacto desse substracto com os dentes.

Quanto ao hospedeiro, os factores de risco são: esmalte pós-eruptivo ainda imaturo; defeitos do esmalte, morfologia do próprio dente e apinhamento dentário.

A saliva é a principal defesa, mantendo um sistema tampão contra os ácidos produzidos.

Situações individuais que interferem no fluxo salivar, tais como frequente despertares nocturnos, problemas respiratórios (ex: asma) e a aparente epidemia de respiradores orais, aumentam a susceptibilidade à cárie.

O biberão bloqueia o acesso da saliva aos incisivos superiores, ao passo que durante a sucção na mama o leite é ejectado directamente no palato mole, não sofrendo estagnação ao seu sugado.

O LM (leite materno)tem características imunológicas e a placa dentária formada por ele é diferente da formada pela sacarose.

Concluindo, as chamadas “Caries de biberão”, são exclusivamente formadas pelo biberão.

Evitar a introdução do açúcar na dieta da criança antes dos 2 anos de idade, para não viciar o paladar, naturalmente mais sensível ao doce.

E, principalmente, fomentar, desde o primeiro dente, a escovagem de manhã e à noite e incutir na criança de que tal como o banho, o lavar os dentes é importante e para ser feitos todos os dias.

E, como tudo, eles aprendem é pelo exemplo.

Texto de Drª Marta Gameiro, Medica Dentista com pós graduação em endodontia. Mãe de dois filhos amamentados.

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